📐 Preparar a colocação em planta
Introdução teórica
Preparar a posta em planta (ou colocação em planta) é o trabalho intelectual que antecede o desenho propriamente dito. É o momento em que o técnico:
- Recebe a encomenda do cliente (ou o caso de estudo do professor);
- Decide o que desenhar;
- Decide como desenhar (em planta? alçado? corte? a que escala?);
- Identifica os dados que vão acompanhar o desenho (texto, cotas, anotações).
Esta etapa corresponde, no projecto profissional, à fase de anteprojecto ou estudo prévio. Sem ela, qualquer técnico se atrapalha, perde tempo a refazer e produz desenhos pouco claros.
🖼️ Ícone sugerido: desenho animado de um técnico com lápis no ouvido, prancheta na mão e bolha de pensamento com várias vistas (planta, alçado, corte). Colocar no início da secção.
2.2 Explicação detalhada de cada critério de desempenho
a) Receber a encomenda do cliente
A encomenda é o pedido formal do cliente. Pode ser oral (uma conversa) ou escrita (um termo de referência). No mínimo deve indicar:
- Tipo de edifício (casa, escritório, armazém);
- Programa (quartos, casas de banho, sala, cozinha);
- Localização (talhão, bairro, distrito);
- Área aproximada do terreno;
- Orçamento estimado;
- Prazos.
Boa prática moçambicana: elaborar uma ficha de encomenda em folha A4 com tudo registado e assinado pelo cliente. Evita mal-entendidos quando, mais tarde, surgem dúvidas. Esta ficha é também útil em pedidos de licenciamento nos Conselhos Municipais.
b) Determinar com precisão os elementos que se devem desenhar
Para a casa do caso de estudo desta UC (1 nível: sala, cozinha, casa de banho, 2 quartos), os elementos mínimos a representar são:
- Paredes (exteriores e interiores);
- Portas e janelas com o seu vão e sentido de abertura;
- Pavimentos (pisos);
- Pé-direito e níveis;
- Telhado e respectivas asnas;
- Escadas (se houver — neste caso, eventualmente uma escada de acesso à entrada);
- Mobiliário fixo (loiça da cozinha e da casa de banho);
- Cotas principais (largura, comprimento, vãos);
- Anotações (nomes dos compartimentos, áreas).
c) Ter em conta o género, religião, idade, origem étnica ou deficiência
Este é um critério ético-pedagógico que a ANEP introduz em quase todas as UC. Significa:
- Pensar em acessibilidade: portas suficientemente largas (≥ 0,80 m), casa de banho adaptada se houver pessoa com deficiência motora;
- Respeitar culturas e religiões (ex.: orientação da casa, sala de oração, separação espacial em famílias muçulmanas em zonas do Norte);
- Pensar em crianças e idosos (escadas com corrimão, pavimentos antiderrapantes);
- Atender à estrutura familiar moçambicana, frequentemente alargada, garantindo privacidade adequada entre quartos;
- Considerar género na disposição de espaços (privacidade da casa de banho, segurança).
No desenho, isto traduz-se em escolhas concretas: largura dos vãos, número de degraus por lanço (máx. 16-17), declives das rampas (≤ 8% para acessibilidade).
d) Escolher a(s) vista(s)
As vistas ortogonais principais em arquitectura são:
Vista | O que mostra |
Planta (vista de cima) | Corte horizontal a ~1,40 m do chão; mostra paredes, portas, janelas, mobília. |
Alçado (vista frontal, posterior, lateral) | Fachada vista de fora, sem cortes. Mostra portas e janelas fechadas, cobertura. |
Corte (vertical) | Secção vertical do edifício; mostra pé-direito, lajes, telhado por dentro. |
Planta de cobertura | Vista de cima do telhado; mostra águas, cumeeiras, beirais. |
Para a casa-tipo desta UC, a evidência exige vista de frente (alçado), planta, vista lateral e corte.
e) Escolher o(s) corte(s)
Um corte é definido por um plano vertical de secção. Devem-se traçar pelo menos:
- Um corte longitudinal (no comprimento da casa);
- Um corte transversal (na largura).
O plano de corte deve passar por zonas significativas: escadas, casa de banho, cozinha, para mostrar lajes, peitoris, alturas de janelas e estrutura do telhado.
f) Respeitar os detalhes existentes
Se a casa tem detalhes específicos (uma chaminé tradicional, um nicho na parede, uma cobertura de palhota anexa, um pátio coberto típico das casas moçambicanas), todos devem aparecer no desenho. Não inventes nem omitas. Em obras de reabilitação, isto é ainda mais crítico.
g) Executar cuidadosamente o desenho
Cuidadosamente quer dizer:
- Linhas a fechar bem (sem cantos abertos);
- Cotas alinhadas;
- Textos legíveis e bem posicionados;
- Símbolos colocados no sítio correcto (porta com arco no sentido correcto de abertura).
h) Identificar correctamente os dados descritivos para representar
Os dados descritivos são as anotações que acompanham o desenho:
- Nome do compartimento (Sala, Cozinha, WC, Quarto 1, Quarto 2);
- Área útil em m²;
- Pavimento (cerâmico, betonilha afagada);
- Cota de nível (±0,00, +0,15, -0,30…);
- Identificação de portas e janelas (P1, P2, J1, J2…) com referência ao mapa de vãos (tabela à parte).
i) Escolher a(s) escala(s) adequadas
Para a evidência específica desta Parte:
Elemento | Escala recomendada |
Aro de porta ou janela (vista de frente) | 1:20 |
Escadas (vista de frente e lateral) | 1:20 ou 1:50 |
Telhado com asnas (vista de frente e ortogonal) | 1:50 para a vista geral; 1:20 para o detalhe da asna |
2.3 Procedimento passo-a-passo: preparar a posta em planta
- Ler a encomenda ou o enunciado do caso de estudo.
- Listar todos os elementos a representar (folha à parte).
- Esboçar a lápis num croqui as várias vistas.
- Decidir as escalas e o tamanho da folha (ver Parte 4).
- Abrir o template preparado na Parte 1.
- Criar as vistas no Navigator (ArchiCAD) ou Project Browser (Revit): planta piso 0, alçado norte, alçado sul, etc.
- Importar a planta de base (se houver levantamento topográfico).
- Marcar o plano de corte com o símbolo normalizado A-A’, B-B’.
- Pré-distribuir as vistas na folha de layout antes de desenhar.
2.4 Como representar em planta — princípios
- Paredes cortadas pelo plano horizontal: traço grosso contínuo.
- Paredes ou elementos acima ou abaixo do plano de corte: traço fino ou tracejado.
- Portas: representadas abertas a 90°, com o arco da abertura indicado a traço fino.
- Janelas: representadas pela interrupção da parede com duas linhas paralelas (uma para o caixilho, outra para o vidro). Em janela de correr, dois rectângulos sobrepostos com seta.
- Escadas: vista de cima com setas e numeração dos degraus, com linha de corte ondulada a indicar onde acaba a parte visível.
2.5 Boas práticas e erros comuns
Boas práticas:
- Fazer sempre um croqui à mão antes de ir para o computador.
- Definir uma única origem (ponto 0,0,0) — geralmente o canto sul-poente da casa.
- Trabalhar com referências activas (Snaps): ponto final, ponto médio, intersecção.
- Imprimir uma versão A4 de teste com a planta esquemática para mostrar ao cliente antes de avançar.
Erros comuns:
- Esquecer-se de cotar o pé-direito → corte fica inútil.
- Desenhar a planta sem pensar onde fica o norte → o cliente recebe e fica perdido.
- Não identificar os vãos → impossível depois fazer o mapa de vãos.
- Misturar escalas na mesma vista → confusão na leitura.
2.6 Sugestões de ícones para esta Parte
- Ícone de “ficha de encomenda” (folha com assinatura e relógio) → encomenda do cliente.
- Ícone de “acessibilidade” (cadeira de rodas em portas largas) → critério c.
- Ícone de “três vistas” (cubo decomposto em planta, alçado, perfil) → vistas ortogonais.
- Ícone de “plano de corte” (linha A-A’ com setas) → cortes.
- Ícone de “régua de escalas” (1:20, 1:50, 1:100) → escolha da escala.
- Ícone de “bússola com norte” → orientação.
- Ícone de “lápis sobre croqui” → o esboço à mão antes do CAD.
2.7 Glossário breve — Parte 2
- Encomenda — pedido formal do cliente.
- Planta — vista de cima, projecção horizontal.
- Alçado / Fachada — vista frontal de uma face exterior.
- Corte — secção vertical do edifício.
- Plano de corte — plano vertical imaginário que “fatia” o edifício.
- Mapa de vãos — tabela de portas e janelas com dimensões e quantidade.
- Pé-direito — altura entre o pavimento e o tecto.
- Cota de nível — altura relativa de um ponto.
- Acessibilidade — adequação do edifício a pessoas com mobilidade reduzida.